NEGRAS(OS), CUIDEM DOS SEUS CABELOS! OU PODE SER TARDE DEMAIS...

Danos e diminuição das células da cutícula e córtex após 3 sessões de alisamento.

Alguns dias atrás passeando pelas ruas de Paris me deparei com um reduto de salões que apresentavam muita semelhança entre si: propagandas de alisamento, mechas de cabelo e perucas à mostra nas vitrines e imagens de penteados do tipo trança raiz e suas mais diversas customizações. Em meio a tantos caucasianos de pele muito branca por ocasião do destino me vi em uma rua onde praticamente só avistava negros e negras e os ditos salões. Minha curiosidade deixada de lado, o texto de hoje tem um grande objetivo, alertar e explicar aos leitores os riscos que correm os negros(as) ao submeterem seus cabelos a alguns procedimentos estéticos. O alisamento pode ser visto como o grande vilão, mas tão prejudicial ou mais do que ele são alguns penteados, como tranças, bem como o jeito como se prende o cabelo no dia a dia. Os últimos, por oferecem extrema tração aos fios, podem induzir à alopecia de tração, uma situação de ausência de cabelo que pode ser irreversível, como você pode ver na imagem da famosa modelo Naomi Campbell.Veja dicas de como cuidar dos seus cabelos no dia a dia neste meu texto.
Trança raiz em cabelos afro, um
styling muito bonito e perigoso.
O artigo publicado por Lee e colaboradores (2014) nos ajuda a entender alguns porquês. A cor e morfologia dos cabelos e da pele humana diferem entre as raças e fatores genéticos são as principais causas destas diferenças. Em cabelos lisos e levemente ondulados a textura macia da superfície dos fios se deve à organização das cutículas que mantém um padrão regular. O cabelo de negros, por ser altamente espiralado, apresenta distribuição de células cuticulares irregular (ora maior e ora menor número de células ao longo da fibra), com menos células nas regiões de “curva” ou “dobra”, o que explica em grande parte a fragilidade dos cabelos afro a agressões externas, desde as mais simples condutas como lavar e pentear.
Esquema representativo da curvatura da haste capilar
e  sua morfologia em corte transversal.
Outro ponto fundamental que explica as diferentes respostas dos fios de cabelo a agressões é a espessura dos mesmos, que varia conforme a etnia. Os cabelos com maior diâmetro são os asiáticos, seguido dos caucasianos de cabelos mais escuros. Os mais finos são os cabelos afro e os de europeus brancos. Além do que, cortando um cabelo transversalmente e analisando ao microscópio é possível verificar que a morfologia do cabelo afro é a mais peculiar, com similaridade a um rim ou grão de feijão, enquanto o caucasiano é quase cuboide e o asiático bem cilíndrico.
Devido à morfologia do cabelo afro ser muito espiralada o simples ato de pentear pode induzir muitos danos em pontos específicos da fibra, induzindo a situações como a tricorrexe nodosa (exposição do córtex como resultado da perda de células da cutícula em sítios pontuais da fibra), tricoptilose (pontas duplas) e quebra do fio. Por consequência da sua estrutura mais fina bem como o seu formato (corte transversal)há um decréscimo da sua resistência à tração. Metaforicamente, se uma mecha de 100 fios de cabelos saudáveis asiáticos poderia suportar 200 g até romper, uma mecha com mesmo número de cabelos afro saudáveis poderia suportar muito menos peso até romper, ou seja, sua resistência antes da ruptura (quebra) é muito menor (estes números não correspondem à realidade e foram escolhidos meramente para fins didáticos). Há uma relação bem definida nesse sentido: A RESISTÊNCIA À TRAÇÃO DE UM FIO DE CABELO É ALTAMENTE DEPENDENTE DA MORFOLOGIA DO SEU CORTE TRANSVERSAL. 
Microscopia de cabelo
asiático, europeu branco
 e afro antes do alisamento.
O estudo de Lee (2014) avaliou, entre outras coisas, o efeito de sucessivos alisamentos em três diferentes tipos de cabelo: asiático, europeu branco e afro. O procedimento de alisamento consistiu na aplicação de um produto contendo tioglicolato de amônio sobre as mechas secas. Após aplicar em toda a mecha e dar pausa de 10 minutos, o agente alisante (tioglicolato) foi neutralizado com peróxido. As amostras de cabelo foram esticadas com um pente e deixadas em condição ambiente durante 15 minutos para serem posteriormente lavadas em água corrente. Este procedimento foi realizado 3 vezes com intervalo de 24 horas entre cada (uma situação não praticada na vida real; ponto negativo do artigo que o autor assume na discussão do mesmo). O dano causado às fibras capilares foi analisado por microscopia eletrônica de transmissão. Compare as imagens dos cabelos das três etnias antes (imagem à direita) e depois do alisamento (imagens lá de cima, a primeira deste post). O dano à cutícula é muito claro e mais acentuado nos cabelos afro e de europeus brancos (cabelos também muito finos). No entanto, os cabelos afro são justamente os mais frequentemente submetidos a este tipo de procedimento. Com relação aos danos causados ao córtex após os sucessivos alisamentos, Lee demonstrou que eles parecem similares entre as diferentes etnias. No entanto, pensa comigo: se o dano à cutícula acontece e parece inevitável, o dano ao córtex ser mais severo é apenas uma questão de tempo, pois sem a proteção da cutícula as células corticais estarão totalmente expostas.
Sendo assim, finalizo o texto tal qual comecei. Negras (os), cuidem dos seus cabelos! Ou pode ser tarde demais...

Fonte: Lee et al. International Journal of Dermatology 2014, 53, 1103–1110.

Professora Tatiele Katzer
Farmacêutica (CRF-RS 14858)
Doutoranda em Nanotecnologia Farmacêutica (UFSM)
Mestre em Ciências Farmacêuticas (UFRGS)
Docente do Curso de Estética e Cosmética da UNISC (RS)
Docente de pós-graduações nas áreas de Pele, Cosmetologia e Tricologia
Colaboradora do Blog Tricologia Médica

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