VOCÊ SABE COMO OS ATIVOS RECONSTRUTORES CAPILARES INTERAGEM COM A FIBRA?

Assim como eu, estou certa de que você quer que seu cabelo seja bonito e saudável. No entanto, fazemos a todo o momento algo capaz de, gradativamente, danificar nossas madeixas. Mesmo os hábitos mais comuns e necessários, como lavar, escovar ou pentear são causadores de danos às fibras. O que sobra então para as mudanças de formato ou cor (alisamento, permanente, coloração ou descoloração)! Ainda tem os secadores, chapinha e a radiação solar!
Vários ingredientes cosméticos foram desenvolvidos para reparar os danos do cabelo. Antes de qualquer coisa é importante sabermos que reverter os danos causados às fibras capilares de forma a deixa-las tal como eram antes é, até então, uma ilusão. Nossos cabelos são compostos majoritariamente por queratina, uma proteína muito resistente. No entanto, uma vez que a danificamos não é possível reconstruí-la. Você, especialmente se não for da área (profissional, eu quero dizer) deve estar neste momento sentindo algum nível de chateação frente a esta informação e ao mesmo tempo deve estar se perguntando... “Como assim não é possível? Eu uso uma máscara para hidratação que tem queratina e aminoácidos! Se o cabelo é feito de queratina, eu uso a máscara e pronto! A queratina será reposta” Ou “Meu cabeleireiro me disse que faz uma reconstrução capilar com x ou y (e aqui todos os nomes são possíveis como estratégia de marketing)”. Lamento informar-lhe que não é beeeem assim. A queratina de fato é o ativo cosmético mais usado em produtos capilares voltados a fios danificados devido ao seu efeito de condicionamento (melhora a textura da superfície do cabelo), no entanto não tem a capacidade de se ligar permanentemente à queratina natural do cabelo, apenas transitoriamente.
O trabalho que apresento a vocês hoje é de um grupo de pesquisadores japoneses que analisou a interação de dois ativos cosméticos, a quitosana catiônica (um polímero natural com carga positiva, extraído normalmente do exoesqueleto de crustáceos) e o aminoácido L-teanina (semelhante ao L-glutamina que naturalmente é encontrado em concentração significativa no extrato de chá verde).  Um estudo anterior relatou que L-teanina restaurou a propriedade mecânica (resistência) do cabelo danificado e a quitosana tem efeito de condicionamento ao neutralizar parcialmente cargas negativas da superfície dos cabelos.
O objetivo do trabalho foi utilizar uma técnica muito moderna (TOF-SIMS – espectroscopia de massa de íons secundários por tempo de voo – se o nome já é complexo, que dirá a técnica!) para saber a localização dos ingredientes cosméticos após aplicação nos cabelos e compreender, assim, o seu mecanismo de interação com o cabelo.
Como foi feito o trabalho? Foram utilizadas mechas de cabelos de japoneses, cortados a 5 cm do couro cabeludo. Os cabelos considerados virgens não foram submetidos a nenhum procedimento. Os cabelos danificados foram obtidos após uma ou duas sessões de descoloração (solução de peróxido de hidrogênio 3% – a popular água oxigenada 10 volumes + 1% de amônia, por 30 minutos a 30 ◦C) e/ou uma sessão de permanente (10 minutos de contato, a 30 ◦C, usando uma solução aquosa contendo 6% de ácido tioglicólico, pH 9. Após lavagem com água destilada, o cabelo foi oxidado durante 10 minutos usando solução aquosa de bromato de sódio a 6%).
As mechas de cabelo (virgem ou danificado) foram mergulhadas em uma solução contendo 5% de L-teanina, durante 10 minutos. Em seguida, este cabelo foi enxaguado com água e seco com um secador de cabelo. O cabelo foi cortado transversalmente para as análises microscópicas.
Para avaliar a interação da quitosana catiônica com os fios, as mechas de cabelo virgem ou danificado (neste caso, descolorido uma vez) foram imersas em solução aquosa contendo 0,1% de quitosana catiônica durante 5 min. Em seguida, os cabelos foram enxaguados em água destilada e secos com secador.
Imagens de TOF-SIMS (espectroscopia de massa de íons secundários por tempo de voo) de (a) fio de cabelo virgem e (b) danificado após imersão em solução do aminoácido L-tenanina (note a maior quantidade e maior distribuição de "pontos" na imagem b - cabelo danificado); (c) fio de cabelo danificado após imersão em solução de quitosana catiônica (note a coloração amarela na parte externa da haste; ela representa as moléculas de quitosana)

Os resultados do trabalho demonstram que a QUITOSANA CATIÔNICA FOI UNIFORMEMENTE ADSORVIDA NA SUPERFÍCIE DO CABELO. Além disso, MAIOR QUANTIDADE DE QUITOSANA FOI ADSORVIDA NO CABELO DANIFICADO EM RELAÇÃO AO CABELO VIRGEM. Você sabe a que se deve esta diferença? A superfície mais externa do cabelo humano é revestida com uma monocamada lipídica chamada epicutícula, composta principalmente pelo lipídio 18-MEA ligado à queratina através de uma ligação tioéster (-CO-S -). A epicutícula é danificada pela descoloração, que provoca a quebra desta ligação e a formação de um ácido cisteico (-SO3H). Já está amplamente demonstrado na literatura que em CABELOS DANIFICADOS POR PROCESSOS QUÍMICOS HÁ FORMAÇÃO DE ÁCIDO CISTEICO EM MAIOR QUANTIDADE, o que AUMENTA A CARGA NEGATIVA SOBRE A SUPERFÍCIE DO CABELO. Aí entra aquele princípio básico da física que diz que cargas opostas se atraem. Se o cabelo danificado é altamente carregado com cargas negativas, substâncias cosméticas de carga positiva, como a quitosana usada neste estudo, terão muitos pontos a mais para interagirem eletrostaticamente.
A imagem nos permite ver também a diferença na distribuição do aminoácido L-teanina no interior  da fibra capilar (córtex) virgem em comparação à fibra capilar danificada. Fica evidente que a fibra danificada permite a entrada de maior quantidade do aminoácido, isso porque a barreira que as células da cutícula impõem é muito menor, pois estão parcialmente desalinhadas.Vale lembrar que esta facilidade de permeação para o interior da fibra capilar é uma via de mão dupla. Assim como mais substâncias conseguem entrar, mais conseguem sair, incluso a água, o que torna os cabelos gradativamente mais ressecados.
Uma pena os autores não terem avaliado as propriedades mecânicas e estéticas dos cabelos após terem demonstrado como ocorre a interação dos ativos cosméticos com a fibra. Ficamos curiosos para saber se de fato os fios ficariam mais resistentes à ruptura, mais brilhosos, mais penteáveis...


Ainda assim achei muito interessante o artigo e dividir com você é sempre uma satisfação.

Fonte: Kojima et al., Surf. Interface Anal. 2011, 43, 562–565

Professora Tatiele Katzer
Farmacêutica (CRF-RS 14858)
Doutoranda em Nanotecnologia Farmacêutica (UFSM)
Mestre em Ciências Farmacêuticas (UFRGS)
Docente do Curso de Estética e Cosmética da UNISC (RS)
Docente de pós-graduações nas áreas de Pele, Cosmetologia e Tricologia
Colaboradora do Blog Tricologia Médica
E-mail para contato: tatielekatzer@ademirjr.com.br
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