O uso dos óleos essencias em terapia capilar (foco de hoje: pediculose)

Olá, pessoal. Há pouco mais de dois anos, em um momento de buscas na internet, anotei na última página da agenda duas palavras: “Tricologia Médica”. Percebi que tinha me deparado com um espaço de conteúdo diferenciado do resto que conhecia até então. Fiquei encantada com a clareza, seriedade e temas abordados nos textos do Dr. Ademir Jr. Falando nele, gostaria de agradecer pelo convite a este profissional admirável, extremamente competente e atencioso. Muito obrigada! Espero contribuir e somar, trazendo para os leitores do blog a discussão de temas atuais, relevantes e muitas vezes polêmicos, sempre embasados em literatura científica e um bom tempo de dedicação e estudo. É com imenso prazer e satisfação que escrevo o primeiro texto como colaboradora do blog Tricologia Médica.

Começo minhas atividades aqui no blog escrevendo sobre um tema que anda em alta: o uso dos óleos essenciais nas afecções capilares. Marcas renomadas têm lançado linhas de produtos capilares contendo óleos essenciais na sua composição e muitos profissionais da área têm adicionado à sua carta de tratamentos o uso destas substâncias como opção terapêutica. Para que se compreenda um pouco sobre os óleos essenciais, começo abordando a sua origem. As plantas produzem compostos primários, como açúcares e substâncias nitrogenadas, que são utilizados diretamente para a sua nutrição. Além destes, produzem também compostos secundários, com funções como autodefesa (repelentes de insetos herbívoros), atração de polinizadores (garantia de perpetuação da espécie) e proteção contra a perda de água. Entre os compostos secundários estão os óleos essenciais.
É importante que se ressalte que óleos essenciais, essências e extratos botânicos são diferentes. Óleos essenciais são 100% naturais, podem ser extraídos de diversas partes das plantas, apresentam aromas característicos de cada planta e propriedades terapêuticas e farmacológicas. 
As essências (“mistura aromática”, “óleo aromático”) são sintetizadas em laboratório, são muito mais baratas (encontramos em lojas de itens para a casa), não possuem ação farmacológica e podem mimetizar aromas diversos. Os benefícios do uso das essências (que também pode ser alcançado com o uso dos óleos essenciais) é o despertar da memória olfativa (aquilo que o sujeito lembra e experencia ao inalar o aroma) e, por isso, são muito usadas com finalidades cosméticas, alimentícias, bem como estratégia de marketing (sabe aquela loja que você passa na frente e sente sempre o mesmo cheiro delicioso? Pois então, não é uma bela estratégia de marketing?). Os extratos botânicos, por sua vez, são obtidos de diversas partes de plantas, mas por métodos diferentes, desta maneira não são obtidas frações nem aromáticas, nem voláteis, mas ainda assim muito úteis para fins cosméticos e farmacêuticos.
Uma vez esclarecidas as diferenças, voltamos aos óleos essenciais. As indicações de uso dos óleos essenciais vão desde infecções (fúngicas, geniturinárias, intestinais, respiratórias, entre outras), passando por melhora de estados de insônia, indisposição, nevralgia, menopausa, etc. Em relação às indicações voltadas às desordens dos cabelos e couro cabeludo, encontramos informações descritas nos livros (deixo no final deste post a sugestão de três títulos excelentes) e artigos científicos, sugerindo os óleos essenciais como auxiliares nos tratamentos de alopecia androgenética (calvície genética), alopecia areata, dermatite seborreica, psoríase e pediculose. Para que a nossa conversa não fique muito longa logo de início, escolhi o tema pediculose para comentarmos um pouco hoje.
A pediculose, uma dermatose causada por piolhos (Pediculus humanus capitis), afeta mais de 30% das crianças em idade escolar. É transmitida através do contato direto com pessoas infestadas ou seus objetos, como boné, escovas, roupas, presilhas. Em função de normalmente manterem os cabelos longos, as meninas são mais acometidas do que os meninos. O principal sintoma é a coceira intensa que, dependendo da densidade da infestação, pode levar a escoriações e possíveis infecções.

Piolho mostrando a ruptura intestinal com inflitração
tórax após 20 minutos de contato com óleo essencial de
melaleuca a 1%. Fonte: Di Campli, 2012.

Sabe-se que existem diversos produtos farmacêuticos para o tratamento da pediculose, em diferentes apresentações farmacêuticas (comprimidos por via oral, loções de permanência no couro cabeludo, sabonetes e xampus). No entanto, há uma crescente resistência dos parasitas aos tratamentos usados há longa data. Frente à necessidade do desenvolvimento de novas possibilidades de tratamento, diversos autores tem pesquisado o uso de óleos essenciais. Um artigo de 2012, desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Itália e publicado no periódico internacional Parasitology Research, avaliou a eficácia do óleo essencial de melaleuca (Melaleuca alternifolia) e do composto nerolidol (que pode ser isolado dos óleos essenciais da carqueja e boldo) contra os piolhos e seus ovos. Os piolhos e os ovos (coletados de criança de uma escola italiana) foram colocados em placas de vidro que continham uma folha de “papel” absorvente. Para avaliar a eficácia das substâncias em questão, este papeis recebiam uma quantidade específica da solução contendo concentrações variadas das substâncias em diferentes proporções. Os resultados foram incrivelmente satisfatórios. O óleo essencial de Melaleuca a 1% foi capaz de matar 100% dos piolhos em 30 minutos de contato. Por sua vez, embora também tenha apresentado ação piolhicida, o ativo nerolidol a 1% matou 50% dos ovos depois de 4 dias de contato. O mesmo resultado só foi possível dobrando a concentração do óleo de melaleuca (2%). A combinação das duas substâncias na razão 1:2 (ou seja, 0,5% de óleo de melaleuca + 1% de nerolidol) matou 100% dos piolhos em 30 minutos e 100% dos ovos em 5 dias, demonstrando a sinergia que ocorre quando a associação é feita. Assim como este artigo, existem vários outros demonstrando a eficácia do uso de outros óleos essenciais no tratamento da pediculose.
Acho importantíssimo estarmos constantemente buscando novas formas de tratar as alterações que se apresentam ou mesmo aquelas que já conhecemos de longa data, mas que de alguma maneira os organismos causadores (bactérias, vírus, fungos e, neste caso, parasitas) desenvolvem mecanismos de “defesa” e começam a tornar-se resistentes aos tratamentos que até então eram eficazes. Além disso, o uso dos óleos essenciais permite aos profissionais não médicos, como os tecnólogos em estética e cosmética e terapeutas capilares, mais uma possibilidade de contribuição no tratamento do paciente. Por fim, o uso de um recurso natural me soa uma estratégia extremamente interessante.  O tema está longe de ser esgotado, sendo assim volto trazendo mais informações sobre o uso de óleos essenciais em outras alterações capilares.

Brevemente, me apresento: Meu nome é Tatiele Katzer, sou farmacêutica (mestre em Ciências Farmacêuticas, doutoranda em Nanotecnologia Farmacêutica) e atuo como professora universitária no curso de Estética e Cosmética de duas instituições no Rio Grande do Sul (UNISC e UNIVATES) com disciplinas como Tricologia Cosmética e Cosmetologias, dentre outras.


Artigo trabalhado:  
Di Campli, E. et al. Activity of tea tree oil and nerolidol alone or in combination against Pediculus capitis (head lice) and its eggs. Parasitol Res (2012), 111:1985-92.

Livros sugeridos:
Ferraro et al. Fitocosmética: fitoingredientes y otros produtos naturales. 1ª. ed. Buenos Aires: Eudeba, 2012.

Wolffenbutel, A. N. Base da química dos óleos essenciais e aromaterapia: abordagem técnica e científica. São Paulo: Roca, 2010.


Corazza, S. Aromacologia: uma ciência de muitos cheiros. São Paulo: Senac, 2010.
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