Bimatoprost e seu papel no tratamento de alopecias

Pacientes, alunos e colegas costumam dizer que sou um crítico severo de determinados produtos e procedimentos para quedas capilares. Eventualmente penso que eles estão certos, em outros momentos creio ter meus motivos para contestar ou ter minhas preferências.
Em primeiro lugar entendo que a grande maioria dos medicamentos que temos no mercado apresentam boas indicações. A grande relevância para entender se um produto pode ser eficiente ou não é compreender se ele está sendo utilizado para a indicação com a qual mais combina. 
O que quero dizer com isso é que há tantas possibilidades de alopecias, assim como níveis de severidades das mesmas, que crer que um produto qualquer pode ser utilizado com o mesmo sucesso para todas elas é algo improvável. 
Em segundo lugar, observo em muita gente uma tendência a simplificar determinados processos e consequentemente a dirigir um olhar reducionista para o problema da queda de cabelos. Explico: é muito mais fácil tentarmos associar uma queda capilar a uma causa específica do que crer que ela possa ter mais do que um mecanismo envolvido na sua manifestação. Esses mecanismos podem ser provocados por causas diferentes (genética, alimentação, estresse, problemas de saúde) ou por processos celulares diferentes (ação de determinadas enzimas, hormônios, receptores de membrana, mecanismos de comunicação celular, interferências na atividade ribossomal, entre tantos outros). 
Li recentemente mais um artigo sobre o bimatoprost, um ativo que foi lançado há alguns anos para o tratamento do glaucoma (aumento da pressão intra ocular) e que já havia mostrado, na medida que era utilizado como colírio, alongamento dos cílios como um efeito ao uso da medicação (aponto aqui o fato que para muitas mulheres isso é um benefício colateral e não um efeito colateral indesejado). Volto a falar sobre o artigo mais abaixo.
Como outras tantas medicações presentes no mercado e que são lançadas para uma indicação, e utilizadas inicialmente apenas por uma especialidade, a descoberta de efeitos interessantes das mesmas pode representar para a indústria um novo nicho de mercado a ser explorado e, consequentemente o lançamento de um produto diferente com o mesmo ativo. No caso do bimatoprost esse novo lançamento veio com a proposta de ser um agente alongador de cílios que não seria aplicado como um colírio, mas sim com a ajuda de um pequeno brush que lembra o aplicador de rímel das mulheres. 
Naturalmente que, em virtude do benefício no crescimento dos fios da região periocular, veio a curiosidade em entender se haveria para o bimatoprost também uma indicação nas alopecias, em especial naquelas que estão vinculadas com a atrofia dos fios, mais especificamente a alopecia androgenética. 
Voltando ao artigo que citei três parágrafos acima, e publicado no FASEB Journal, os autores apresentam possíveis esclarecimentos sobre o mecanismo de ação do bimatoprost no crescimento dos cabelos. E, por fim, sugerem o ativo como uma possibilidade para o tratamento das alopecias. São hipóteses levantadas sobre o mecanismo de ação do bimatoprost o fato de ser um agente que estimula as vias de sinalização intracelular e consequentemente as alterações na expressão gênica de sinais parácrinos (comunicação entre células próximas). Esses sinais acabam por chegar aos queratinócitos (células que geram o crescimento dos pelos e cabelos) e os melanócitos (células envolvidas no processo de pigmentação dos fios).
Conheço muitos colegas que, assim como eu, já fizeram alguma avaliação de resultados com o ativo em pacientes calvos. Posso garantir que fiquei realmente frustrado. Mesmo quando utilizado por um período relativamente longo (12 meses) em áreas muito pequenas de rarefação (em virtude de ser um produto de custo elevado e que tornaria o custo do tratamento muito caro para ser aplicado em áreas mais amplas) o ativo costuma ter efeito discreto.
Por conta disso, e levando em consideração o fato de que apesar da justificativa dos autores para o mecanismo de ação do bimatoprost ser coerente, devemos sempre lembrar de que as causas da calvície genética passam por outros mecanismos que costumam ter mais relevância do que aqueles em que o bimatoprost atua. Consequentemente, a ação do produto fica limitada e acaba por ser frustrante. 
Não me incomodaria em pensar nele como um agente adjuvante, mas não indicaria como um  ativo de base no tratamento de nenhuma alopecia. 
O AUTOR NÃO TEM CONFLITOS DE INTERESSE COM NENHUM LABORATÓRIO QUE POSSA SER VINCULADO A ATIVOS CITADOS NESSE POST. 
O AUTOR É CONTRA QUALQUER TIPO DE ESTÍMULO À AUTOMEDICAÇÃO E ENTENDE QUE A CONSULTA MÉDICA É FUNDAMENTAL PARA O BOM CUIDADO COM A SAÚDE. 

Referências:
Khidir GK et al. The prostamide-related glaucoma therapy, bimatoprost, offers a novel approach for treating scalp alopecias. The FASEB Journal. 2013;27(2):2557-2567.

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